Lusa

Uma sala que salva vidas em seis milhões de quilómetros quadrados de mar

Por Fernando Peixeiro (texto) e Hugo Fragata (vídeo)

Por Fernando Peixeiro (texto) e Hugo Fragata (vídeo)



*** serviço vídeo disponível em www.lusa.pt ***



Lisboa, 14 jun (Lusa) — Esta semana um pescador caiu ao mar na zona de Peniche e em 10 minutos estava no local um “salva vidas” do Centro de Busca e Salvamento. O homem desapareceu, mas o Centro salvou só no ano passado 482 pessoas.


Cerca das 14:40 de segunda-feira, a norte do Cabo Carvoeiro, no barco “Coração do Atlântico” os pescadores iniciavam a pesca de polvos quando um deles, 20 anos, fato de oleado verde vestido e sem colete salva-vidas, caiu ao mar.


Poucos minutos depois (14:43) o Centro de Coordenação de Busca e Salvamento Marítimo de Lisboa (MRCC Lisboa), uma sala em Oeiras dentro das instalações da força da Nato (STRIKFORNATO), era informado.


Coordenados pelo capitão-tenente Coelho Dias, os responsáveis do Centro enviam de imediato para o local o salva-vidas “Vigilante”, que estava na Berlenga, e mandam dirigir-se para o mesmo sítio outro barco de pesca das imediações, “Augusto Alberto”. Um helicóptero da Força Aérea EH-101 é acionado e chega ao local às 15:46.


Na sala vivem-se momentos tensos. São quatro filas de computadores e quatro écrans gigantes, num deles a ver-se a progressão do “Vigilante”, que chega ao local em menos de 10 minutos. Coelho Dias e todos os outros sabem que os primeiros momentos são cruciais. “Quando há um acidente é mandar logo cavalaria pesada para o local”.


Ainda assim o pescador não chegou a ser visto. As buscas prosseguiram nos dias seguintes. “Tentamos sempre fazer funerais condignos, enquanto pudermos ficamos no local”, diz o responsável à Lusa.


E resume depois assim o trabalho do Centro: “é um esforço conjunto entre os meios da Marinha, os meios da autoridade marítima local e também um grande esforço em articulação com os meios da Força Aérea. Se os marítimos souberem sobreviver no mar e antes disso conseguirem emitir um alerta para o ar, nós vamos lá, encontramo-los e trazemo-los para terra sãos e salvos”.


Pelo pescador de Peniche nada se podia fazer. Os homens do Centro de Busca e Salvamento perceberam isso quando os minutos passavam, porque ninguém aguenta muitos minutos na água. “Quem usa o mar, quer para fins lúdicos quer profissionais, tem de tomar medidas. Recomendamos sempre que usem o colete salva-vidas, porque pode fazer a diferença entre a vida e a morte”, diz Coelho Dias, adjunto do gestor de operações no MRCC Lisboa.


Felizmente o saldo é positivo, como conta à Lusa. Em 2013 o MRCC Lisboa (Maritime Rescue Coordination Centre) e os outros dois centros dos Açores e da Madeira tiveram 537 operações e salvaram 482 pessoas. “Em cada 100 pedidos de ajuda em 97 são salvas as pessoas”.


Esta ano, só a partir do MRCC Lisboa, foram feitas “19 evacuações”, 11 por helicóptero e 8 por embarcação. Coelho Dias diz que a maior parte dos pedidos de socorro chega de navios mercantes e de navios de passageiros e dizem respeito a pessoas que se sentem mal. Na lista surgem depois os acidentes de trabalho e da pesca.


No verão é pior, com mais embarcações no mar. E há tanto mar para cuidar. São 5,8 milhões de quilómetros quadrados, o Atlântico Norte dividido a meio entre Portugal e os Estados Unidos, a 15.ª maior área do mundo da responsabilidade de um país.


No extremo sul, a cerca de 1100 milhas de Ponta Delgada, uma embarcação demora três dias a chegar. Nesse caso, explica Coelho Dias, utilizam-se os aviões, por vezes apenas para lançar kits de sobrevivência. Mas o Centro sabe se num caso desses algum navio anda por perto, e fá-lo divergir para o local onde é preciso prestar socorro.


Essa é a grande mais-valia do MRCC. Junta tecnologia mas também esforços. Trabalha com a Polícia Marítima, a Força Aérea, bombeiros, capitanias, INEM, Instituto Hidrográfico, de Meteorologia, polícia, Serviço Nacional de Saúde, Cruz Vermelha… “Nunca houve despesismo na busca e salvamento, tem os meios necessários e nunca houve uma missão que deixasse de ser feira. Nunca!”


Entre 2010 e 2012 através do Centro salvaram-se 2031 vidas no mar, vítimas de doenças (a maior parte dos casos), de abalroamentos, afundamentos, colisões. É uma média de dois casos por dia para os seis homens da sala cheia de écrans que salva vidas.



FP // CC.


Lusa/fim

Author: Boss

Autoria: Lusa / Fernando Peixeiro
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